eu tenho uma janela cheia de flores, acordo todo dia antes do sol esquentar, dou água a essas flores e me pergunto até quando elas sobreviverão sob a minha responsabilidade. pergunto isso sobre o quarto arrumado, sobre as contas pagas, sobre o namorado feliz e satisfeito. pergunto sobre os amigos que vem e vão, os que se cansam e os que insistem. pergunto isso sobre minhas unhas pintadas, sobre as páginas em branco de um caderno qualquer, meu carro limpo e minha geladeira cheia de comida. pergunto isso sobre as ligações metódicas do meu pai e minha vó morrendo num leito de hospital. pergunto isso sobre o céu de brigadeiro e o caminhão de lixo que passa religiosamente todas as terças, todas as quintas e todos os sábados. pergunto até quando a vida sobreviverá sob minha responsabilidade. eu penso no alivio todo que eu pensei que sentiria. penso no dia que seria mais fácil, menos pesado e inteiro finalmente. mas o que tenho nas mãos são as dores que eu mesma provoquei, no peito o medo que nunca me abandonará. tenho uma vida toda pra conseguir qualquer coisa que queira. sou capaz, sou inteligente, sou bonita. embora não sei mais o que desejar, o que querer. além, é claro, o desejo de saber quando essas flores finalmente morrerão. 

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