Ela

(...)

Tereza era tão metódica pra lavar louça que mais parecia um ritual. Deve ser porque gostava. Nunca havia um copo sujo na pia. E assim que terminava o almoço lavava tudo antes de dormir seus 20 minutos diários antes de ir trabalhar. A casa de Tereza não era necessariamente limpa e organizada. Eu já vi roupas sujas penduradas no sofá. Aos domingos nunca fazia a cama.Tinha um gato velho, muito velho, que deixava umas bolinhas de pelo nos cantos. Acontece que ela nunca lavou as cortinas. Mas vivia falando que ia fazer. Com o tempo eu achava até graça.
Mas a cozinha era um santuário. A pia um altar. Nunca me explicou essa obsessão.

Tereza tirava os sapatos e deixava na porta todo dia. O gato dormia em cima. Abria a janela da sala e fumava um cigarro. Vez ou outra fazia um café.

Do meu ponto de vista eram todos rituais sagrados. Eu era uma observadora religiosa de cada um deles. E o tempo me deixou a lembrança nítida de tudo. Eu não lavo a louça assim. Pensei que depois de tudo eu ia contrair essa obsessão por saudade e luto. O gato veio pra cá e morreu quatro meses depois. Tenho uma samambaia daquela casa que resistiu ao tempo , um vestido e dois livros. Nenhum adquiriu o peso simbólico que eu queria. Estão aí e tem horas que eu não sei o que pensar.

Eu parei de fumar.
Mas isso todos nós sabíamos que ia acontecer.

(...)

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