Postagens

Conto I

Cheguei atrasada em casa, corri tomar um banho. Debaixo do chuveiro escutei o celular tocando duas vezes. Corri vestir uma roupa, estava terminando de passar um batom, peguei o celular e tinha uma única mensagem. Dele. Dizia: a Tereza morreu.
Isso faz dois anos.
Depois daquela semana nunca mais nos falamos. Era ela o nosso elo. Indesejado, vale lembrar. Mas valia a pena. Tereza foi a parte mais doce da minha vida.
Até hoje.

das feridas que deixamos abertas.

Imagem

Rua 3, 284

Hipoteticamente era para chover pelo menos uma chuva por mês. Hoje, marca o quadragésimo oitavo dia sem chuva.
Estava sentado na cama, abaixado, amarrando o cadarço do tênis e tentando evitar que o sangue escorrendo do nariz o sujasse. Uma gota foi inevitável. Deveria ser umas quatro da tarde. Perdeu o relógio outra vez. Fechou a casa sem cerimônia, sentou na calçada suja e esperou. A rua quase deserta estava movimentada aquele dia. Carros da polícia seguiam em direção a uma grande construção abandonada no final do bairro. Não demoraria. Ou demoraria, sempre chegava atrasada, esbaforida dizendo que estava resolvendo um monte de coisas. Um vento varreu as folhas na rua e fez subir uma nuvem imensa de poeira.  Lembrou que escutara no telejornal que estava pra chegar uma frente fria. Mas sem chuva. Ela chegou quase uma hora depois do combinado e como sempre esbaforida. Não escutou nada do que ela falava no curto trajeto entre um bairro e outro, cruzando uma avenida. Subiram para o oi…
terça-feira a tarde,  meu colchão sem cama, mais um botão na roseira e a vastidão de sempre em dois metros e meio de janela.
eu tenho uma janela cheia de flores, acordo todo dia antes do sol esquentar, dou água a essas flores e me pergunto até quando elas sobreviverão sob a minha responsabilidade. pergunto isso sobre o quarto arrumado, sobre as contas pagas, sobre o namorado feliz e satisfeito. pergunto sobre os amigos que vem e vão, os que se cansam e os que insistem. pergunto isso sobre minhas unhas pintadas, sobre as páginas em branco de um caderno qualquer, meu carro limpo e minha geladeira cheia de comida. pergunto isso sobre as ligações metódicas do meu pai e minha vó morrendo num leito de hospital. pergunto isso sobre o céu de brigadeiro e o caminhão de lixo que passa religiosamente todas as terças, todas as quintas e todos os sábados. pergunto até quando a vida sobreviverá sob minha responsabilidade. eu penso no alivio todo que eu pensei que sentiria. penso no dia que seria mais fácil, menos pesado e inteiro finalmente. mas o que tenho nas mãos são as dores que eu mesma provoquei, no peito o medo q…
(...)

e eu esqueci que o verão acabou.
tem lá um monte de caixas amontoadas no canto da sala. eu poderia jogar tudo fora e levar só o peito vazio para essa vida nova. mas eu, no meio de todas as coisas acumuladas, do lixo desses anos todos, escolhi uma e outra lembrança menos dolorida, as fotografias menos envelhecidas, uns cacarecos que resistiram ao tempo mais do que a minha loucura.
é como ter uma casa para abrir as janelas de par e par e não precisar fechá-las na hora da chuva pois agora a varanda é grande. e ter varanda grande é como ter o coração desafogado de mundo e viver, aliviadamente, um dia de cada vez.